sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O crash demográfico vai matar nossa Economia!

A população mundial chega a 7 bilhões de pessoas este mês, e crescem novamente as preocupações com a superpopulação. Em boa parte do mundo rico, porém, já pisamos tão fundo nos freios demográficos que isso pode estar ajudando a causar nosso pânico econômico atual.

É uma ideia interessante. Alguns acreditam que as populações jovens podem estar movendo tudo, desde a primavera árabe até o milagre econômico da China - e talvez o declínio do Ocidente, também.

O primeiro exemplo vem do Japão. Economistas dizem que o mundo desenvolvido está ingressando agora em algo que o Japão viveu inicialmente na década de 1990, quando sofreu uma "década perdida" de estagnação econômica da qual nunca se recuperou. E isso, argumentam alguns, aconteceu porque estão se acabando os adultos jovens do Japão.

O Japão possui as pessoas mais velhas do mundo - a expectativa média de vida das mulheres é de 86 anos - e um dos índices de fertilidade mais baixos do planeta. Com apenas 1,2 filho por mulher, tem pouco mais da metade do que precisa para conservar sua população atual. Enquanto isso, a idade média da população é superior a 40 anos, e uma em cada quatro pessoas tem mais de 65.

É uma reviravolta extraordinária. Algum tempo atrás, o Japão era um país jovem. Na época em que era líder das economias asiáticas, o país se beneficiava de uma população enorme de adultos jovens, com poucos dependentes idosos. Esses adultos jovens ficaram tão ocupados trabalhando que quase desistiram de ter filhos. Então eles envelheceram. Resultado: a terra do sol nascente tornou-se o país do sol poente.

E o resto do mundo está seguindo o mesmo caminho trilhado pelo Japão. O país europeu que está começando a ser visto como caso perdido é a Itália de Silvio Berlusconi. Não há dúvida alguma de que mudanças demográficas tiveram um papel nisso. Graças a uma geração de fertilidade ultrabaixa, o último país europeu ocidental a ter um primeiro-ministro nascido antes da Segunda Guerra Mundial hoje tem a população que é a segunda mais idosa do mundo.

O vendaval de crescimento econômico em outras economias asiáticas descritas como os tigres da região está perdendo força à medida que a fertilidade se reduz e as populações envelhecem. Hoje a China é jovem e vibrante, mas a política do filho único está restringindo o aumento da população. Dentro de uma década, é possível que a população comece a diminuir, e então a China terá a maior população em processo de envelhecimento que o mundo já viu. O que era boom pode em breve converter-se em bust.

O Oriente Médio se encontra em etapa anterior nesse caminho demográfico. Mas, com a queda dos índices de natalidade, muitos países dessa região possuem um contingente adulto jovem desproporcionalmente grande em sua pirâmide demográfica. Os governos deixaram de atrelar esse potencial demográfico para promover crescimento econômico, mas pode-se imaginar que foram aqueles adultos jovens que moveram o radicalismo muçulmano e, agora, a primavera árabe.

Uma geração atrás, as pessoas que reivindicam reformas democráticas nas ruas do Egito, Tunísia e Síria - e que formaram o Exército maltrapilho da Líbia - teriam estado em casa, cuidando das crianças. Quer seja movendo o crescimento econômico ou reivindicando democracia, os adultos jovens são forças dinâmicas em prol das transformações, em qualquer sociedade. Mas, quando as sociedades envelhecem, esse dinamismo morre.

E o envelhecimento é o novo caminho seguido pelo mundo. O debate público que vem sendo travado em torno do marco dos 7 bilhões de pessoas não destaca esse fato, mas hoje a mulher mediana no mundo tem metade do número de filhos do que tiveram sua mãe ou sua avó, 40 anos atrás: 2,5, ao invés de cinco. E esse número se reduz constantemente. Em dezenas de países ele já é inferior a dois filhos por mulher, entre eles no Irã, Mianmar, Vietnã, China, é claro, e boa parte do sul da Índia também.

No longo prazo, isso não é o suficiente para manter a população no nível atual. Muitos prevêem que a população mundial chegue ao auge em meados do século e diminua a partir desse momento. Quer aconteça mais cedo ou mais tarde, o envelhecimento global maciço já é uma certeza.

Desconfio que a orgia econômica global do século 20 tenha sido produto de uma população jovem e em franco crescimento. Ela vai morrer à medida que envelhecermos. A década perdida do Japão, e sua provável reprodução no mundo ocidental, talvez constituam o primeiro sinal disso. E já não era sem tempo. Todos sabemos que não podemos continuar como estamos. O planeta não o suportaria. A festa acabou.
                      Fonte: Folha de São Paulo, 06/09/2013




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