segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O naufrágio da dentadura.


"...transmitida para a rádio e para vários alto-falantes do local"

   Já contei, mas vai de novo com ampliações. O Dentadura II. O jornalista Sérgio Jockymann contou no jornal Folha da Tarde um causo saboroso dos anos 50. Inaugurava-se uma barragem e à cerimônia, feita no alto da obra, veio todo o mundo de sempre e os papagaios de pirata de costume.

    Chegou a vez do prefeito. Todo retaco na sua fatiota nova, ajeitou o microfone de haste, puxou um calhamaço de papel. Arrumou a garganta com um pigarro forte e abriu a boca para falar, fala que seria transmitida para a emissora de rádio local e para vários alto-falantes espalhados na área.

    Desastre. Sua dentadura caiu dentro da barragem. Quinze metros de fundura, como mediu mais tarde um mortificado correligionário. Silêncio total. Depois de um longo tempo, o alcaide boca murcha conseguiu articular uma mensagem radiofonizada de desespero.    

           - Efa não! E’fazia a reprefa!

    Teve também o caso do sempre aqui citado jornalista Carlos Amaro Coelho. Quando tomava umas canjibrinas a mais, conforme gíria da época, inventava de esconder sua dentadura em algum lugar do quarto do hotel onde morava. Na manhã seguinte ele ligava para os companheiros de libação da noite anterior e disparava o SOS dos sem-dentadura.

           - Vofês não fabem onde diabof eftá minha dentadura? Que bofta! P’erdi de nofo meuf dentef!

    E a gente lá ia saber? Um dia estava no sapato, no outro dentro da geladeira e até no chinelo. Paranoico de dentadura, vejam só. De outra vez o Coelho, que era o editorialista da Zero Hora no tempo em que ela era do empresário Ary de Carvalho, foi a um coquetel na casa do chefe, cuja mulher, Marlene, não ia lá muito com a cara do Coelho. Estavam lá secretários de Estado, o governador e seus secretários, empresários, o cardeal Dom Vicente Scherer, magistrados, tout le monde.

    Pois foi em uma dessas rodas de alto coturno que o Coelho encostou. A conversa estava animada e o meu amigo Coelhinho deitava falação. Estava no auge da peroração quando a voz de dona Marlene atravessou o salão e chegou aos ouvidos de uma dúzia de pessoas.

           - Ô seu Coelho! Essa tua dentadura nova fica tão bem em ti...

De "A vida como ela foi"
Fernando Albrecht





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