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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Um dia para esquecer...



                         Terça-feira, trinta de junho do ano em curso. Tranquila, em casa, senti que algo estava errado, um silêncio, um vento se fazia sentir pelo barulho das folhas secas que rolavam pelo chão. Abri a porta, saio lá fora, vou para os fundos do quintal. O céu muito escuro, um vento ameaçador iniciou. Recolhi as roupas do varal, entrei depressa em casa, chamei meu filho que tinha vindo visitar-me uns dias e depressa fechamos a casa. O temporal, previsto, mas não esperado, veio de repente, com um barulho ensurdecedor. Foi tudo muito rápido. Senti que o telhado da casa, poderia voar, não sabíamos o que fazer. Sentamos no sofá, sem noção de onde ir , o que fazer. Olhei para baixo da mesa, lembrando dos meus tempos de criança,  o único local em que poderia ir, para uma emergência. Lá coloquei rápido, almofadões e ficamos aguardando. Muito barulho lá fora, não se sabia o que estava acontecendo. A energia se foi. Muito escuro, embora fosse dezesseis horas. Repentinamente, chuva descendo do forro da casa. Sentimos o som batendo no piso, nos quartos. Mesmo com medo, fomos olhar, a água descendo, mas, por sorte, não nas camas. Recorri, a sacos plásticos, grandes , guardados na dispensa. Com eles, preservei as camas, a televisão, os aparelhos eletrônicos. Foi um ciclone-bomba, que com sua fúria, causou destruição grande por onde passou. A fé em Deus, livrou minha casa de muitos estragos, mas ficamos dois dias sem energia e sem comunicação. Difícil foi conseguir pessoas para consertar as telhas e a instalação elétrica. Mais difícil ainda, por em funcionamento a Internet ( fibra ótica, os fios na rua romperam) , a antena da TV que teve que ser trocada. Quatro dias para resolver tudo. Mas, temos que agradecer a Deus, que os gastos não foram tão elevados e não sofremos nada fisicamente. O pânico, o terror tomou conta nestes momentos em que o ciclone passou e deixou traumas, por um tempo. É inverno, faz frio. Quando se restabeleceu o sinal de televisão, que constatamos a destruição que causou em todo o Estado de Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul. Famílias que ficaram sem teto, sem nada. Junto a este fenômeno, a pandemia, que está causando muitos cuidados e isolamento social há mais de setenta dias. Momentos aterrorizantes, que não se esquece facilmente. Momentos de reavaliar a vida e valorizá-la. Nada se pode fazer durante uma tempestade, a não ser se resguardar e orar. Agora, agradecer a Deus e lembrar das famílias que estão em dificuldades. Foi um último dia de junho, em que nos damos conta que perante estes fenômenos da natureza, ficamos inertes, sem ação.

                     (luiza menin manfredi)

   Barra Velha, SC  aos  05/07/2020


quarta-feira, 1 de junho de 2016

LUSCO-FUSCO

            Tempo fechado, ameaçando chover desde a manhã. Resolvi sair.  Dezesseis horas. Estaciono o carro e entro no supermercado. Nem vi o tempo passar, analisando preços do que deveria comprar, da minha listinha.  Em tempo de inflação, leva-se um tempão nessa tarefa. Quando saio dele, levo um susto, já escurecendo e a chuva caindo copiosamente e para completar, neblina.  Coloco as compras no carro e saio, cuidadosamente.  Numa cidade onde pessoas com bicicletas, dominam as ruas estreitas, um, ziguezagueando à minha frente, entrava e saia do centro da rua.  Andava devagarinho como a situação exigia. Em pleno horário de pico, toda a cautela é pouca, devido o mau tempo. Aquela bicicleta já estava me levando a procurar um local para estacionar e deixá-lo ir, livrando o trânsito atrás de mim. Não consegui. Outras bicicletas a frente surgiram. Nem a chuva os atrapalhava.  Jovens brincando com a vida. Fui seguindo, 40 km/h  às vezes 20.  De repente, um estrondo no lado direito. Levei um susto. Não conseguia parar porque estacionamento na rua não havia.  Quando surgiu um espaço, parei para ver o que houve. O espelho direito do carro ( já havia percebido antes) estava baixado.  Olhava, pensando... percebi pedacinhos de vidro.  Surge um homem na minha frente, já estava escuro, a chuva continuando.. Apresentou-se  como o dono do carro que teve o espelho do seu carro quebrado. Olhei, vi seu carro logo adiante.  Conclusão: paguei o espelho que estraguei, o meu só sofreu arranhões na pintura preta. Disse ele: ainda bem,o meu é barato, trinta reais. Se fosse o seu...  Refleti com ele, lá na minha cidade, no RS, a rua é dos carros e os transeuntes em suas faixas de pedestres e não das bicicletas, que deveriam estar nas ciclovias.  Quem paga o susto que levei?  E se aquele Senhor fosse um dos tantos assaltantes que rondam o litoral diuturnamente?  Essas pessoas não pensam que poderiam causar graves acidentes! E guardas de trânsito onde estão?  Sumiram como tantos outros...Sem comentários.  Cheguei em casa, 5 km, retiro as compras, fecho as portas e sento para agradecer a Deus que foi apenas um espelho, com a imprudências dos donos das tantas bicicletas que andavam pelo centro da rua, poderia ter sido algo pior... O susto passou  ..é noite ...e a chuva continua!!  Aprendi mais uma vez:  no lusco-fusco, em dias chuvosos, a casa é o lugar mais seguro. Sair, só em urgências e essas, que Deus me livre!!

                                      £uiza
                                      01/06/2016
                                      Barra Velha, SC.




terça-feira, 31 de maio de 2016

Situação político-econômica do Brasil.

 Estamos em maio, final de mês. A situação politico-econômica do pais, é caótica.  O assunto do momento é a posse do vice-presidente no Governo, provisoriamente. Ligamos a TV é corrupção, lava jato, delação premiada. Enquanto isso, milhões de brasileiros desempregados, industrias dispensando mais funcionários, empresas se unindo para não ir à falência, com isso sobrando mais pessoas que ficarão sem seu emprego e o sustento de sua família.  Ministros da República que assumiram, muitos estão sendo investigados. Estamos diante de uma situação que não sabemos onde nem como vai terminar.  a  sofrida população brasileira, principalmente os menos favorecidos, que vivem de seu salário, vão diminuindo as compras de alimentos para a família.  É impossível, com o déficit existente, dar a volta na situação sem que recaia no bolso dos brasileiros os recursos para sanar as dívidas. Novamente vai sobrar para nós trabalhadores, aposentados, funcionários públicos, apertar o cinto mais uma vez. Não é revoltante tudo isso? 
 Muitos com dinheiro no exterior, fruto de falcatruas. Para esses, crises não existe. Não vejo em curto prazo solução. Vejo sim, o risco do Presidente em exercício, também sofrer as consequências do envolvimento e deixar o cargo. Nesse caso, mudar a legislação e eleições já. E tem maioria no Congresso Nacional para isso?  
Não vai virar luta de classes correndo riscos a democracia?   
Deus salve nosso Brasil!

                                         Luiza
                                         Barra Velha, em 31/05/2016

domingo, 20 de março de 2016

Aeromóvel em Porto Alegre- Crônica -

Publico hoje, a crônica do Escritor e Poeta Paulo Miranda, postada hoje, no Recanto das Letras, complementando publicação minha "Aeromóvel Coester" datada nesse blog, em 24/10/13.
Meus agradecimentos Poeta, mais conhecimento vivenciado para complementar o tema.

                    **************************************************


O Aeromóvel Coester

Um artigo precioso no blog Meusregistrosepostagens, de nossa confreira Lumah, postado já há quase três anos nos descerra uma notícia auspiciosa e que, infelizmente, terá tido muito pouca repercussão mídia brasileira.

Trata-se do Aeromóvel Coester, meio de transporte de massa, colocado a funcionar na cidade natal de seu inventor, Oskar Coester. O trecho é pequeno, mas sinaliza um começo promissor, ainda que tardiamente: ligando a cidade de Porto Alegre ao seu aeroporto, Salgado Filho.

Tive a oportunidade de acompanhar, e de perto até, um pouco da saga desse nosso ainda pouco conhecido inventor.  Foi em Jacarta, a capital da Indonésia, literalmente, lá nas nossas antípodas...

Buscando ganhar reconhecimento e dimensão internacional, Oskar conseguiu a concessão e pertinente financiamento para instalar seu invento
naquela populosa cidade do arquipélago indonésio. Uma batalha, vencida graças à tenacidade e poder de argumentação de nosso ilustre cientista, que numa primeira instância havia recebido a recusa por seu invento não ter sido ainda provado e por, segundo avaliadores, não ser, em tese, capaz de absorver um fluxo maciço de usuários, como é o caso dos serviços de metrô, ou trens.

Mas com o apoio decidido de uma influente filha do então Presidente Suharto a obra saiu, experimentalmente construída num parque de diversões, nos arredores de Jacarta, o Taman Mini Indonesia, num formato circular, com cerca de 4 kms de extensão.

Havia, como ainda há, grande interesse de mega-empresas estrangeiras, de países desenvolvidos, em disputar concorrências internacionais para lançarem projetos de transporte coletivo em Jacarta, que tem uma população superior a dez milhões. Afora as urbanizações circunvizinhas, fora do território municipal.

O entusiasmo dos proponentes do projeto Coester em Jacarta fê-los apressar a data de sua inauguração, deixando para data posterior a instalação dos controles eletrônicos e os imprescindíveis teste. Acolheram, assim, a idéia de o colocar a serviço, apenas com controles manuais, com a presença do próprio Presidente Suharto e entourage, numa sessão inaugural. Exaustivos testes já tinham sido realizados com esse modo de operação. E, se presumia, não podia haver erro.

E houve. Entre uma estação e outra, com a volta quase completa, o carro suspenso deu repentina travada. A esposa do então Vice-Presidente, de joelhos, ao piso foi lançada.

No dia seguinte ao desafortunado ocorrido, o Estado de São Paulo publicava sarcástico e bombástico despacho da France-Presse, intitulado "Brasileiro derruba o Governo indonésio".

E ainda hoje estamos nós a endeusar o champagne e o croissant franceses...Mas o trenzinho, há vinte e cinco anos tá lá, girando e transportando visitantes do parque.

Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 20/03/2016
Código do texto: T5579288
Classificação de conteúdo: seguro

           imagem captada na web





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Becicleta


Becicleta. Foi assim que grafei a palavra no meu exame de admissão ao
ginásio. Acho que nunca a houvera escrito antes, embora andasse em
minha boca e na de tantos garotos, loucos por uma Monark ou uma Calói
Havia também aquelas estrangeiras, importadas cujas marcas não se
pronunciava e muito menos se escrevia, mas babar à meninada fazia.
Raleigh, Gulliver, Merckswiss...
Mas a minha becicleta por pouco me deixa fora da reta, pois a prova de
português, a língua pátria do primário, era eliminatória e naquele
embate poderia significar o fim da minha incomeçada história, ou pelo
menos confiná-la a uma segunda edição, uma terceira, e não sei mais
não.
E o pior é que não foi uma única vez que incidi no erro: pois a prova,
além de constar de várias perguntas, tinha também a composição, que
por sua vez consistia na descrição de uma gravura. E justamente ali,
um menino com sua becicleta, e um ramalhete de flores.
Sabia como começar, pois algum mestre ou mestra já teria ensinado,
soprando a dica: descrição começa-se por dizer, vejo nesta gravura...
e o resto é literatura. Se o aplicador do exame mais atura.
Chegando em casa, ainda arfante daquela experiência ciclística no
papel, perguntei ao meu pai pela grafia em dúvida, buscando
assegurar-me do que podia vir pela frente. Bê, i, foi dizendo ele...
Pronto, tou perdido, disse comigo mesmo, engolindo aquele amargo
travo, quatro ou cinco vezes repetido, no papel.
Mudei de dúvida, para ver se me aliviava: qual o plural de qualquer?
Quaisquer, ora. Nossinhora, tava eu mesmo por fora. Havia escrito
qualqueres...E agora?
Quando anunciaram os resultados, consegui um 5,8. A iminente tragédia
havia virado com média. Que mérdia? E dali pra frente tudo foi
diferente, e o Roberto, já bem perto, mas ainda incerto, nem
incomodava a gente.

Paulo Miranda
Crônica publicada no Recanto das Letras
imagem captada na web

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O tempo ...



Eu não envelheci. O tempo é que passou por aqui e tá
bem mudado. Quase não o reconheci. Lembro-me bem,
o tempo era jovem, cheio de planos, queria me ''fazer''.
Guardava-me para o futuro. Hoje ele tá velho,
o tempo enrugou! Falei baixinho pra mim:
''meu deus, o que o tempo fez com o tempo?!'' Corri
para o espelho e me vi igual e de esguelha o olhei; ele
para mim, de soslaio. Confesso que dei uma risadinha. Ficamos frente a frente.
Depois de tanto ''tempo'' era chegada a hora de conversarmos.
Não sabia por onde começar. Meio sem
jeito perguntei sua data de nascimento. Sabe o que ele
me respondeu? Que era imemorial. Pode?! Tentando disfarçar meu constrangimento, tossi. E o tempo continuou a falar...que era implacável, indomável, insinuante, que pertencia a todos, que fazia o que quisesse com quem bem entendesse. Tentei colocar a mão na sua boca, mas o tempo continuou a me falar, que era onipresente, que viu riso, choro, lágrima, lástima, traição e fidelidade eterna. Fiquei pasmo, lívido! Mas não podia perder a opotunidade, afinal, era eu conversando com o tempo. Tu já tiveste essa oportunidade? O achei presunçoso. Enquanto ele falava, minha cabeça girava tentando uma forma de reverter positivamente para mim, a conversa. Aí lembrei do passado. Com ar triunfal perguntei o que ele, o Tempo, o que ele achava do passado. Sua resposta foi o que motivou esse texto. O Tempo me falou que o seu passado, em algum tempo, sempre foi o seu futuro. Quase enlouqueci. Eu entro em êxtase com verdades. E o Tempo foi verdadeiro comigo.
(Nilson Octávio)

             imagem captada na web

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Infância... Saudades!


 Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite. Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres as visitas. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um. – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre. E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia. – Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável! A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim. Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia: – Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa. Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa. Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança.... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade... Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão.
Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail...
Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa: – Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais. Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores. Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite... Que saudade do compadre e da comadre!...
José Antônio Oliveira de Resende - Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.
 

domingo, 30 de março de 2014

Crônica da violência.


Se o Estado brasileiro ocupasse convenientemente os rincões esquecidos nas periferias, com assistência e educação, não haveria espaço para o crime organizado e a droga não seria a única oportunidade de trabalho e ganho para muitos jovens. Tampouco tantas vidas seriam atiradas no valão da inoperância política. A equação droga/vadiagem/violência não seria o descalabro que é hoje, e certamente não se resolveria de maneira a deixar rastros de sangue. A população dos morros e favelas silencia, é conivente, por medo e porque desenvolveu uma mórbida associação com o tráfico. Foi preciso conviver com ele, já que estava tão próximo e era um inimigo imbatível. A necessidade criou um comensalismo patológico que hoje rouba a cena nos jornais. O Estado, furtando-se à tarefa que deveria realizar, educando, conscientizando, utilizando obras sociais, lança mão de armas e caveirões, lança-chamas e o que mais servir para intimidar. Quer assim ganhar aplausos da população. E a dignidade das famílias que não têm outra opção senão morar nesses guetos? Mirando a paisagem social do Brasil de hoje, sou forçado ainda a concordar com a imagem que Gilberto Freire traçou da sociedade brasileira. A Casa Grande localiza-se à margem de belas praias enquanto a Senzala invade morros e vales. Imagina-se que, como em tempos coloniais, uma nada saiba da outra. A cortina entre esses dois mundos é tecida a balas de calibres diversos.
Marcio Leite

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

No ano passado ...



Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.
Mario Quintana




domingo, 1 de dezembro de 2013

Dezembro chegou...

Suponha que um anjo bata à sua porta. Não se espante: é final de ano e tradicionalmente, como os balões de junho, esta data é propícia ao aparecimento de anjos. Para evitar constrangimentos ou diálogos inúteis, você está sozinho em casa. Então o anjo bate, depois você larga o que estiver fazendo, abre a porta e convida-o para entrar e sentar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como a coisa mais natural do mundo, quando chega visita, também porque faz calor, e ainda ou principalmente porque algo em você sempre soube que deve-se ser gentil com anjos, você pergunta se ele gostaria de beber alguma coisa. Evite fazer isso: afinal, o que um anjo bebe? Café parece inadequado, quente demais para chá, difícil imaginar refrigerante ou cerveja, uísque ainda mais, suco de frutas talvez? Não ofereça nada, sequer faça qualquer comentário sobre o tempo ou aquelas perguntas para forçar intimidades tipo então, como vaio Gabriel? Não, não pergunte nada. Pense apenas que, se um anjo bateu exatamente à sua porta nesta época do ano, e se tão exato entrou e sentou à sua frente, ninguém melhor do que ele saberá, com exatidão, o que fazer. Então espere. Não fique tentando descobrir se seria arcanjo, querubim ou serafim, nem se barroco, gótico ou medieval. Também tente serenizar a memória que certamente vai disparar feito computador, enumerando todas as imagens angélicas arquivadas desde a infância, ou até antes. Controle a tentação de achá-lo a cara daquele anjo da guarda com as mãos estendidas sobre as crianças à beira do abismo; afugente o anjo patético de García Márquez caído num galinheiro; esqueça o anjo cego Pygar carregando Barbarela pelos céus: um anjo é todos os anjos, sobretudo em dezembro. Concentre-se neste, pousado à sua frente. Suponha que você está sentado imóvel e calado à frente de um anjo em sua própria casa, numa manhã ou tarde ou noite deste dezembro. Isso dura algum tempo, parado feito um fotograma. E atenção: estou certo que só depois que o anjo perceber que você parou de corpo e mente, e portanto abriu-se para ele, aceitando-o sem ohs!, é que vai começar a falar. Não uma voz de som, compreenda, mas uma voz dentro de você mesmo, muito clara, embora de certa forma abstrata, porque não-sonora. Com essa voz e nesse momento, o anjo vai dizer a você que pode pedir qualquer coisa. Mas qualquer, qualquer mesmo?, você pergunta ávido. Calma, calma: chegamos ao ponto. Eu aviso porque sei que, quando o anjo falar, será muito fácil sua mente desenfrear-se desgovernada por carros, amores, apartamentos, viagens, iates e toda essa espécie de prazeres. Bastardos, bradará o anjo. Porque — atenção! — se você for pessoal, haverá em seguida um ruflar de asas, um clarão, e o anjo desaparecerá sem atender pedido algum, sem deixar nenhum sinal. É que, a grande revelação eu faço agora, os anjos deste dezembro não são pessoais. Concentrado e fervoroso, então, peça pelo País, por este onde estamos agora os três. Eu, você, o anjo. Que se banhe de luz, peça, e não só isso, peça abstrações como justiça, paz, dignidade, honestidade, e peça ainda o concreto de estradas, escolas, trabalho, comida. Feche os olhos, enumere tudo, com todos os detalhes. Não importa que demore muito, e certamente vai demorar: o País tem todos os defeitos do mundo. Mas os anjos, eles também têm todo o tempo do mundo. Agora abra os olhos. Suponha que você tenha terminado de ler este texto. Suponha que você não acredita em anjos. Suponha que você joga o jornal de lado aborrecido e assim nesse movimento de folhas voando, voa também entre elas uma pena pelo ar. Branca, leve, inconfundível. Que estranho, você pensa, parece de anjo. É neste momento que alguém bate à sua porta. Do livro: Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Adeus Tia Chica.


 Estava 4 a 2 em favor dos réus do mensalão quando o presidente do STF pediu tempo até semana que vem. Pelo andar da carruagem, os acusados não vão em cana e um novo e provável julgamento vai ser mais longo que novela mexicana. Não sei bem onde ficam as calendas gregas, só sei que é longe. E para lá que a coisa vai, ao fim e ao cabo. Ou, na versão de um grande gozador, ao cabo e ao rabo. Salvo reviravolta.

 Nós da mídia ficamos semanas papagaiando sobre embargos infringentes, na maior das vezes sem saber exatamente do que se trata. Também pudera. Continuo achando que se essas infringências todas vingarem, estilhaços atingirão até o governo Dilma. É como essas temidas minas terrestres Claymore, que ao explodir lançam até três mil esferas de aço.

 Confesso que cansei desse assunto. Desde o início suspeitávamos que era puro enrolation. Como na música “Não Me Enrole”: não me enrola não/Para de me enganar/Me joga um charminho/Já me manda um sorriso/Não vou acreditar.
Fernando Albrecht - publicada em 12/09/2013



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Nossos dias melhores nunca virão?


Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho "presente" é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.

As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.

Temos de funcionar, não de viver. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde? A este mundo ridículo que nos oferecem, para morrermos na busca da ilusão narcisista de que vivemos para gozar sem parar? Mas gozar como? Nossa vida é uma ejaculação precoce. Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e futuro; agora, tudo é um "enorme presente", na expressão de Norman Mailer. E este "enorme presente" é reproduzido com perfeição técnica cada vez maior, nos fazendo boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que "não pára de não chegar".

Antes, tínhamos os velhos filmes em preto-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. Nada. Nunca estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, da sucessibilidade de momentos, de começo e fim, ficamos também sem presente, vamos perdendo a noção de nosso desejo, que fica sem sossego, sem noite e sem dia. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.
Arnaldo Jabor

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Uma história engraçada...

O jovem doutor ia passando pelo hospital quando ele viu um paciente passando a vassoura várias vezes no mesmo lugar. Ele estranhou aquilo e foi falar com o paciente.
Olá! O senhor está ajudando na faxina? Muito bom! É bom ver que o senhor está colaborando com a higiene e a ordem do nosso querido hospital. Disse o jovem e orgulhoso médico.
- Não doutor! Eu não estou varrendo o chão. Eu estou coçando as costas da minha amiguinha a formiguinha. Disse o paciente.
- Amiguinha formiguinha! Curioso o médico abaixou-se para ver o que era. Nisso ia passando o diretor do hospital acompanhado de alguns estagiários. O diretor vendo aquela estranha e ridícula cena comentou com os estudantes:
- Jovens! ...Quando vocês estiverem trabalhando aqui tomem cuidado com esse paciente pois, com esse dai, já é o 15° colega que eu vejo cair na história dele.
Edilson Rodrigues Silva


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O naufrágio da dentadura.


"...transmitida para a rádio e para vários alto-falantes do local"

   Já contei, mas vai de novo com ampliações. O Dentadura II. O jornalista Sérgio Jockymann contou no jornal Folha da Tarde um causo saboroso dos anos 50. Inaugurava-se uma barragem e à cerimônia, feita no alto da obra, veio todo o mundo de sempre e os papagaios de pirata de costume.

    Chegou a vez do prefeito. Todo retaco na sua fatiota nova, ajeitou o microfone de haste, puxou um calhamaço de papel. Arrumou a garganta com um pigarro forte e abriu a boca para falar, fala que seria transmitida para a emissora de rádio local e para vários alto-falantes espalhados na área.

    Desastre. Sua dentadura caiu dentro da barragem. Quinze metros de fundura, como mediu mais tarde um mortificado correligionário. Silêncio total. Depois de um longo tempo, o alcaide boca murcha conseguiu articular uma mensagem radiofonizada de desespero.    

           - Efa não! E’fazia a reprefa!

    Teve também o caso do sempre aqui citado jornalista Carlos Amaro Coelho. Quando tomava umas canjibrinas a mais, conforme gíria da época, inventava de esconder sua dentadura em algum lugar do quarto do hotel onde morava. Na manhã seguinte ele ligava para os companheiros de libação da noite anterior e disparava o SOS dos sem-dentadura.

           - Vofês não fabem onde diabof eftá minha dentadura? Que bofta! P’erdi de nofo meuf dentef!

    E a gente lá ia saber? Um dia estava no sapato, no outro dentro da geladeira e até no chinelo. Paranoico de dentadura, vejam só. De outra vez o Coelho, que era o editorialista da Zero Hora no tempo em que ela era do empresário Ary de Carvalho, foi a um coquetel na casa do chefe, cuja mulher, Marlene, não ia lá muito com a cara do Coelho. Estavam lá secretários de Estado, o governador e seus secretários, empresários, o cardeal Dom Vicente Scherer, magistrados, tout le monde.

    Pois foi em uma dessas rodas de alto coturno que o Coelho encostou. A conversa estava animada e o meu amigo Coelhinho deitava falação. Estava no auge da peroração quando a voz de dona Marlene atravessou o salão e chegou aos ouvidos de uma dúzia de pessoas.

           - Ô seu Coelho! Essa tua dentadura nova fica tão bem em ti...

De "A vida como ela foi"
Fernando Albrecht





segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Um texto humorado...

A Solução Capivara
 Leitora fiel observa que os homens ficam carecas com uma precocidade impressionante, e pergunta onde foram parar os cabeludos de antigamente. Verdade, mas a dermatologia (ou a genética) podem explicar. Se é que não vão botar a culpa em algum vírus. Faltou explicação, é vírus. Ou poluição.
 Nos anos 60, havia em Montenegro um cidadão que mal chegara aos 30 e já estava com o teto igual a bola de bilhar, o que o incomodava muito. E tratou de buscar a salvação da lavoura com dermatologistas, depois com psicólogos, depois com curandeiros, pais de santo e até pajés, sem falar nas ervas caseiras recomendadas pelas comadres. E nada de crescer um só fio de cabelo.
 Virou ideia fixa. Só falava nisso em toda roda ou encontro social, o que irritava todo mundo, porque ele se lamentava de como a natureza o tratara mal, que ele era um homem novo, mas careca, e assim ia ele desfiando suas chatas lamúrias.
 Certo dia, ele estava em um jantar social qualquer, e mal veio a entrada, ele começou com sua ladainha capilar. Já tomei isso, já passei aquilo, nada. Quase chorava. Então veio um cidadão, o Joceli, famoso por suas tiradas, entrou no assunto.
- Já experimentaste passar na careca sebo de capivara?
 O prejudicado largou a faca e o garfo no prato, estupefato e esperançoso. Quem sabe não estaria no maior roedor do mundo a sua salvação?
 - Mas nasce cabelo mesmo, de verdade?
 Joceli fez suspense por algum tempo. Fez um sinal que estava com a boca cheia, mastigava e mastigava, o careca ansioso, deu mais uma garfada no carreteiro de charque, tomou um longo gole de cerveja, olhou bem para a careca do outro e suspirou.
- Olha, isso eu não sei. Mas dá um brilho...
Fernando Albrecht - jornalista




sábado, 24 de agosto de 2013

E TUDO MUDOU ...

Muito humor nessa crônica do Veríssimo!

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças
Luis Fernando Veríssimo



domingo, 4 de agosto de 2013

PERDEMOS TEMPO ARRUMANDO DESCULPAS...





"Perdemos mais tempo arrumando desculpas do que vivendo.
Perdemos mais tempo adiando do que aceitando a dificuldade.
Perdemos mais tempo explicando a desistência do que enfrentando o sim.
Eu garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar. Porque estaremos longe, mas com saudade. Porque estaremos protegidos, mas vazios. Porque estaremos aliviados, mas entediados.
A vida é simples, milagrosamente simples. 
A esperança é firmeza. Consiste em seguir adiante mesmo com pânico, mesmo com receio.
Não há como acalmar o coração senão vivendo. 
Parece que nunca conseguiremos fazer, mas vamos fazer, acredite, toda a vida foi feita de sustos bons.
Somente tememos o que é importante. Somente temos dúvidas do que é essencial.
Somente entramos em crise por enxergar com clareza a dimensão de nossa escolha.
Os riscos valorizam a recompensa.
[...]
O impossível é apenas o sobrenome do medo.
Você acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta.
O impossível é inesquecível.
O impossível é o possível repartido. O impossível é o possível a dois."

Fabrício Carpinejar
Fonte: "Pequenas Epifanias" - Ana Martins.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O INVERNO DE VERDADE ...


O inverno “de verdade”, como todos dizem, desencadeia conversas entre desconhecidos no elevador, repartições, clínicas ou qualquer lugar em que estranhos estejam reunidos à espera de alguma coisa. Até entre casais. O tempo, bom, mau e até normal é um poderoso gatilho de comunicação, catalisada pelas baixas temperaturas deste ano.
Não há silêncio que resista quando uma das partes ou uma pessoa em um grupo fala uma generalidade envolvendo o tempo. Primeiro por cortesia, depois porque quer dar o seu pitaco, todos engatam o papo. Claro que cada um conta o seu caso de frio extremo, o que usa ou deixa de usar, como se aquece etc. O doutor Cléo Kuhn é citado com frequência, nem sempre como elogio. Cavacos do ofício, Cléo. Não esquenta.
 Falar sobre o tempo é derreter barreiras de comunicação. Até o mais tímido entre os tímidos pode entrar na conversa. Há um segundo assunto que possibilita essa interação: doença. Faça o teste: em um grupo de estranhos entre si em relativo silêncio, em um recinto fechado, escolha o rosto mais simpático do grupo. Então olhe para ele e diga algo sobre um joanete, um calo, ou uma tosse que incomoda. Em minutos, você sai dali com pelo menos meia dúzia de receitas infalíveis. Algumas muito eficientes.
Fernando Albrecht

sábado, 6 de julho de 2013

Para que serve um amigo?




Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito. 

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. 

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos. 

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos. 

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta. 

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. 

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu. 

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon. 

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado. 

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador. 

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.
Martha Medeiros - 
12/04/1999


terça-feira, 2 de julho de 2013

Os Ministérios da Presidente!!


Se a presidente Dilma Rousseff entendeu o espírito dos protestos, deveria fazer uma vasta faxina na própria casa. Começando por enxugar o número de ministérios. Pelo menos metade poderia tomar Doril ou virar departamento de pastas mais tradicionais. Se o argumento é que eles são necessários para dar emprego até para os primos em terceiro grau dos integrantes dos partidos da base aliada – que nem aliada fiel é – sugiro um superministério.
 Contradição minha? Não. Pega todos os cupinchas, dá cartão de visita de ministro a eles e constrói um prédio grande onde ficava o garimpo de Serra Pelada. Longe de tudo, é importante. Um mês depois metade pediria demissão, mas o importante é que pelo menos eles não atrapalhariam o trabalho dos outros, e poderíamos dizer ao mundo que, enfim, tínhamos só, sei lá, 12 ou 13 pastas.
 Do jeito que está é chacota. Aliás, é preciso corrigir o número de ministérios do governo Dilma. Não são 39 ministérios, são 38 e meio. A pasta das Micro e Pequenas Empresas, comandada por Afif Domingos, é de meio expediente. No outro ele é vice-governador de São Paulo.
Fernando Albrecht - jornalista.